Por Murilo Gitel*
Poucas braçadeiras de capitão cairiam tão bem em um jogador de futebol como as que circundaram os braços de Moisés. Ele jamais procurou ser um líder, pois a liderança natural que ele possuía rejeitaria tal procura, uma vez que tal característica já estava presente em seu DNA.
Revelado pelo Galícia em 1992, Moisés foi ídolo de diversas torcidas. Ganhou títulos, ergueu troféus, comandou voltas olímpicas, honrou as camisas que vestiu, em especial, a do granadeiro azulino – clube de sua predileção.
Lembro-me dele na final do Campeonato Baiano da Segunda Divisão 2007, em Feira de Santana, contra o atual Feirense. O empate em 0 a 0 ao final da partida não servia para o Galícia retornar à elite do futebol baiano, já que apenas o campeão ascendia à primeira divisão do ano seguinte. Com o apito final do árbitro, todos desolados, o capitão Moisés tratou de acabar com aquele clima ruim de tristeza.
“O nosso segundo lugar é honrado. Vamos lá levantar esta taça!”, gritava Moisés, ao centro do gramado do Jóia da Princesa. O incentivo motivou o atacante Diego Higino, que colocou um sorriso no rosto para receber o troféu de artilheiro da competição. Eu via naquele momento a grandeza do ser humano Moisés.
Bem antes disso, o Brasil já o conhecia por conta das passagens destacadas por Vila Nova (GO), Brasiliense, São Caetano, Avaí, Remo, ABC, entre outros grandes clubes do país.
Em campo, Moisés esbanjou competência. Jogador inteligente, chegava à linha de fundo com facilidade, além de ter uma virtude cada vez mais rara nos laterais de hoje: o bom cruzamento. Por vezes, ele surpreendia a defesa adversária ao chegar ao flanco e rolar a bola para trás, sutilmente, maliciosamente, a fim de servir o atacante que vinha de trás. Era gol na certa. Quem já se esqueceu daquela semifinal de 2007 contra o Camaçariense, no estádio Armando Oliveira? E da primeira final do Acesso no mesmo ano, na Fonte Nova?
Mas eu quero me ater ao ser humano Moisés. Homem de fala mansa, que conversava em volume baixo, olhando nos olhos, sem medo de nada, sem dever a ninguém.
No sábado, 24 de abril, eu fazia as fotos para a seção “Elenco” do site oficial do Galícia. Moisés, por sua vez, almoçava, há cerca de meia hora da saída do ônibus para o jogo contra o Ypiranga, no estádio de Pituaçu. Ao terminar o trabalho com os jogadores, disse a ele: “Capitão, quando você terminar o almoço eu tiro a sua foto”. Mas ele fez questão de dar uma pausa para ajudar na minha atribuição, e posou, prestativo e bem disposto, olhando seriamente para a máquina fotográfica.
Nesta quarta-feira, 28 de abril, soube que Moisés se esqueceu de nos avisar que estava de mudança para uma morada no céu. Pensei: mas como? Logo ele, que raramente esquecia qualquer coisa. Como assim? E agora, consternado como vocês todos, de volta do Campo Santo, onde conversei com a família dele, começa a cair a minha ficha. Ele foi descansar depois de tanta correria (por nós, inclusive).
Faltava um capitão no time de Deus.
*Murilo Gitel é jornalista e assessor de imprensa do Galícia.