O dia em que eu vesti azul
Por Murilo Gitel*
"O Galícia é a minha cachaça", acostumei-me a dizer aos amigos, sempre que me perguntam a respeito do granadeiro da Cruz de Santiago, azulino de Brotas ou Demolidor de Campeões, como queiram.
Cheguei ao clube em uma tarde de maio de 2007, como estagiário da recém implantada assessoria de comunicação, que viria a ser responsável pela criação do site oficial (galiciaec.com.br), às vésperas do Campeonato Baiano da Segunda Divisão daquele ano.
Então estudante de Jornalismo, cheguei ao Parque Santiago por intermédio do jornalista João Paulo Oliveira, a fim de substituir o colega Carlos Eduardo Freitas, que iniciara o trabalho. Fui apresentado ao presidente Raimundo Nonato Reis em uma reunião na sede administrativa. Ele deu sinal verde para o início dessa jornada que completou cinco anos em 2012.
Realizei, a partir de então, uma pesquisa histórica sobre o Galícia na seção de jornais raros da Biblioteca Central dos Barris, até que o site oficial fosse desenvolvido. Diário de Notícias, Jornal da Bahia, A Tarde. Ao mergulhar nas páginas esportivas desses periódicos (os dois primeiros já extintos) nas décadas de 1930 e 40, minha paixão pelo clube começava a ser despertada. Logo eu, riograndense de nascimento, colorado ferrenho, já não via nada de negativo ao vestir azul. Azul e branco do Galícia, é claro.
Semear o galicianismo nas novas gerações é missão importante
Foto: Alex Jordan
Uma vez desenvolvido o site, passei a alimentá-lo com matérias e fotos dos treinos e jogos do time, além de iniciar uma relação com a imprensa esportiva local – um desafio imenso, levando-se em conta a centralização das coberturas em Bahia e Vitória. Também conheci muito do interior da Bahia graças ao Galícia, por meio das viagens com a delegação do clube, experiências que me marcaram muito.
Ainda em 2007, quando apenas o campeão do "Baianinho" subia para à elite do futebol baiano, chorei com o velho Mário (que hoje mora no céu), no vestiário do Joia da Princesa, em Feira de Santana, o gol que faltou para sair desse verdadeiro inferno que é a segunda divisão estadual. Infelizmente, o tão esperado acesso ainda nos falta, mas sobra esperança, porque o Galícia é assim mesmo: uma chama que não se apaga.
Apesar de todas as dificuldades financeiras e estruturais do clube durante esses cinco anos, procurar possíveis soluções para antigos problemas sempre foi um desafio que procurei encarar da melhor forma possível. Nesse sentido, criei o sistema lance a lance no site oficial, passando a transmitir os jogos do Galícia em tempo real, direto das cabines de imprensa dos estádios baianos. Dessa forma, o mundo todo, em especial os torcedores que moram na Espanha e longe da Bahia, passaram a acompanhar as partidas via internet.
A TV Galícia, também criada para o site oficial, merece igual destaque, graças aos vídeos de entrevistas e melhores momentos das partidas em HD, trabalho muitas vezes elogiado pela torcida e imprensa.
Em suma, neste 1º de janeiro de 2013, quando o Galícia Esporte Clube completa 80 anos de história, e sua nova diretoria assume o mandato referente ao triênio 2013-2014-2015, eu venho comunicar o meu desligamento como profissional da assessoria de comunicação, ao mesmo tempo que Raimundo Nonato Reis deixa a presidência (assumindo o Conselho Deliberativo), substituído pelo agora presidente Dario Rêgo, a quem desejo toda a sorte possível.
É um ciclo que se encerra, mas muitos outros serão criados, certamente, com dias melhores para esse verdadeiro patrimônio não só esportivo, mas também cultural da Bahia, que é o Galícia. Quero agradecer a oportunidade que o João Paulo Oliveira me deu e a confiança a mim conferida por Raimundo Nonato Reis e Renato Santarém, abnegados, no sentido mais essencial dessa palavra, durante todo esse tempo.
Poderia encher muitas outras linhas para agradecer a todos os galicianos que me auxiliaram nesse período, mas tenho o receio de cometer alguma injustiça e deixar de citar alguém, por questão de mero esquecimento. Quero estender minhas estimas a toda torcida granadeira, que sempre me apoiou, independentemente da orientação política relacionada ao clube.
Eu disse que o meu desligamento é apenas profissional, porque o Galícia passa a ganhar mais um torcedor de arquibancada. Não foram raras as vezes que confessei o fato de comemorar uma simples vitória do azulino, como se fosse um título do Internacional. Talvez porque eu tenha vivido, in loco, durante esses cinco anos, a realidade difícil do clube (que eu espero, sinceramente, que seja superada a partir deste ano).
Não digo que saio com o dever cumprido, porque acredito que sempre há algo a fazer, mas tenho a consciência tranquila de que fiz o melhor com as condições que me puderam ser dadas.
Penso e defendo que seja importante a tentativa de desfazer (e esse também é papel das pessoas que assumem o clube neste momento) essa imagem errônea e que em nada ajuda de que o Galícia é o "time da colônia espanhola". O clube foi fundado, sim, pela colônia espanhola, o que é motivo de satisfação, mas não pertence a ela – embora também dela precise. O Galícia é um patrimônio da Bahia como um todo. Está aberto para acolher a sociedade baiana, descendentes de galegos, de africanos, ou de qualquer povo que dela faça parte.
Precisa de unidade, de união, reunião de esforços em prol de um propósito comum: devolver ao clube os dias de glórias, o retorno à primeira divisão, de onde nunca deveria ter saído. Este é o meu desejo. Estes são meus votos.
Galícia: muito obrigado por tudo!
Feliz 2013!












